Popularizando o Taxi

Março 4, 2009

Hoje tive que dar uma palestra em Santo Amaro e como estava a trabalho, tive a ida e a volta subsidiadas e meu transporte foi fresquinho e gostoso a bordo de um taxi!

[É importante ressaltar que taxi ainda é um luxo para a classe operária principalmente em São Paulo, essa cidade ternura onde ninguém chega em menos de quarenta minutos a qualquer destino com mais de 3 km de distância da origem. Isso é fato. E isso também significa que qualquer taxi daqui até a esquina te empobrece em, no mínimo, R$ 10,00].

Eu gosto de taxi, não só pelo conforto [óbvio] mas porque os taxistas são sempre simpaticões, numas de querer ganhar o cliente e tal e eu não me importo de ir batendo papo, não sou daquelas que abre o jornal no banco de trás e trata o motorista como um lacaio. Mas nessa minha ida rolou um lance bem estranho porque peguei um taxista mudo que de vez em quando resmungava alguma coisa, “porque esse trânsito de São Paulo está cada vez pior” e “esses corredores de ônibus não servem pra nada” e também “esses motoqueiros são uns canibais”, frase essa que me deixou bastante intrigada porque acredito que o intuito dele era mais o de indicar uma androfagia provocada pelo trânsito do que especificamente motoboys comendo churrasquinho de gente.

Já na volta a coisa foi bem diferente: o motorista era todo amigo do mundo, cheio de opiniões, conceitos, temáticas e metodologias a respeito da vida cotidiana e em meio à Marginal Pinheiros recaímos sobre o debate único e crucial quando se está na terra da garoa: O TRÂNSITO.

É lógico que São Paulo é caótica, a cidade não comporta mais carros e ainda assim, a indústria automobilística teima em te dizer que você só será uma pessoa melhor, mais digna, respeitada e feliz quando se puser enclausurada sobre quatro rodas. E ainda que comprar carro esteja fácil, mantê-lo, meu nego, não é tão simples assim…

Dentro de toda essa questão do custo X benefício proporcionado pelo carro e de todos os entraves que a cidade oferece para quem opta pelo automóvel, sr. taxista e eu chegamos à terminante conclusão que nossa sábia Angélica, em seus idos tempos adolescentes, nos jogou na cara em uma quase premoniação sobre os tempos estavam por vir: vou-de-taxi-ce-sabe-tava-morrendo-de-saudade. Ou seja, o taxi pode ser uma parte efetiva da solução para o trânsito de São Paulo.

E aqui volto na questão de que, ainda que comprar um carro seja bem fácil e viável em tempos pós-modernos, mantê-lo é tarefa para poucos: se você trabalha com o carro, ainda que o use somente para a locomação de ida e volta, os custos com estacionamento, combustível e manutenção são bastante relevantes. Quem tem condições de manter um automóvel sob essa e outras circunstâncias, PODE SIM usufruir do taxi para a locomoção diária porque tem condições financeiras para isso. Quem anda de carro todo dia não vai querer andar de ônibus, talvez tope um metrô, mas ônibus nunca e o taxi – de certa forma – oferece o “conforto” proporcionado pelo carro, travestido de transporte público. E são carros que rodam o dia todo, eles não vão entupir a cidade de repente, das 07h00 às 10h00 ou das 17h00 às 20h00. Quem tem grana para manter um carro, tem grana para ir de taxi. Taxis rodam pelos corredores, você não precisa preocupar-se com o trânsito, pode ir lendo, economiza com seguro, vai até dormindo. E pensando em um mundo perfeito, os taxis poderiam ter tarifas reduzidas durante o horário do rodízio para estimular seu uso não só entre os abonados, mas também entre nós, o proletariado em geral.

Lógico que essa não é uma SOLUÇÃO para o trânsito, mas acredito de verdade que, a curto e médio prazo, poderia ser uma alternativa bem viável para a cidade.

E o taxista disse que topava.

A pé

Fevereiro 26, 2009

Adoro o finalzinho do meu almoço porque eu fico ali na frente do prédio tomando o primeiro café vespertino, fumando lentamente o meu cigarro e vendo a vida passar ali pela Av. Santo Amaro: carros, motos, carros, motos, gente, carros, carros, gente, motos, motos, motos.

Jogo o cigarro e vou passeando bem devagar por esse caos urbano, olhando as lojinhas e sempre comprando um sorvete na volta.

Você pode até não ser de São Paulo, mas deve estar careca de saber o quanto a gente sofre aqui com a chuva. Tudo bem, o país inteiro sofre com chuva demais, vide Santa Catarina e tal. Mas nesses casos o caos surge em meio à tempestade, ao exagero,  às barbas de São Pedro mandando ver no castigo mundano!

São Paulo não, beibe. São Paulo é assim:

- 10 minutos de garoa: trânsito lento.
- 30 minutos de garoa: trânsito congestionado.
- 1 hora de garoa: tudo parado.

Agora pensa: e quando chove? Meu nego, o que acontece com São Paulo quando chove???

- 1 minuto de chuva: trânsito lento.
- 5 minutos de chuva: tudo parado.
- 1 hora de chuva: fim do mundo.

E é fim do mundo mesmo, amigão. Para tudo: trem, metrô, ônibus, semáforo… É em dia de chuva que “marronzinho” realmente trabalha! E é no dia em que chove que ninguém te pega no rodízio.

Enfim, hoje choveu e eu demorei três horas para chegar em casa. Estação da Luz com escada rolante parada só para comportar a inefável quantidade de gente que ia chegando do metrô e não tinha para onde ir. Congestionamento de gente, meu povo! DE GENTE! Sé às seis da tarde ficou no CHI-NE-LO!

Mais calor humano, impossível!

EAOSA

Fevereiro 20, 2009

Você já ouviu falar de um ônibus popularmente conhecido como “EAOSA”? Se você não for do ABC Paulista, certamente não.

“EAOSA” é a sigla para “Empresa Auto Ônibus de Santo André”. No começo eram ônibus do tipo leito, grandes, com ar-condicionado e poltronas confortáveis, percorrendo o trajeto Mauá-Pacaembu [Via Av. Paulista] a uma módica tarifa cinco vezes maior que a do ônibus tradicional.

Em tempos de crise reduziram a frota, colocaram aqueles terríveis microônibus para circular, as poltronas não são tão macias e recliná-las  é condenar o passageiro da fileira anterior a miseráveis duas horas de percurso semi massacrado. Mas a tarifa continua cinco vezes mais cara. Quer dizer, seis, porque houve reajuste dia desses.

Esse é o EAOSA.

Eu pego o EAOSA. Todo dia, benhê.

A parte boa [sim, porque sempre tem uma parte boa nessas histórias] é que apesar do aperto, é um ônibus que vai direto de um ponto a outro, poupando-nos da terrível experiência do trem espanhol da CPTM – alternativa padrão para a população do ABC Paulista que quer chegar a São Paulo. E o fato do EAOSA fazer esse percurso nos dá, em manhãs de sono tórrido, a oportunidade de dormir, cochilar ou piscadelar aquele restinho de sono que ficou desde às cinco da manhã com relativo conforto.

Mas não se engane: aquele povo arrumadiho que trabalha na Paulista e frequenta o EAOSA também tem um lado sórdido, mesquinho e vilão.

Situação 1: silêncio e tranquilidade. Pessoas dormindo no EAOSA, ouvindo seus mp3, lendo um livro ou simplesmente observando a paisagem pela janela.

Situação 2: mulher histérica entra falando alto, exaltando as qualidades do motorista [já que ele parou fora do ponto só para que ela entrasse] e depois de cinco minutos berrando à beira da catraca, ela passa pelo estreito corredor mas não sem antes esbarrar com sua bolsa [que mais se parece com um saco de carregar defunto] em, no mínimo, umas cinco pessoas. E quando o ônibus freia, ela se desequilibra e quase mata massacrado o pobre moço da pastinha…

Situação 3: a sra. desequilibrada [física e emocionalmente] encontra uma conhecida dentro do ônibus e desata a maricar em alto e bom som, porque legal mesmo é fazer todo mundo do ônibus ouvir o quanto ela gosta de bala de canela.

Eu poderia associar todo o meu mau humor desta manhã a condições sócioeconômicas, políticas, culturais, emocionais ou renais, mas serei escrotamente determinista: a culpa de toda minha ranhetice desta aurora foi dessa mulher!

A idéia

Fevereiro 19, 2009

Como não podia deixar de ser, a idéia para este blog surgiu durante uma sonolenta e enfadonha viagem matinal de ônibus. Na verdade, em qualquer outro horário eu certamente estaria lendo alguma coisa e a mente, suficientemente ocupada, não daria vazão para esse tipo de elocubração.

Mas como laboriosa pessoa que sou, acordar cedo é condição sine qua non de sobrevivência em um mundo capitalista, ainda que a organização seja não-governamental. Naquela aurora viagem, veio a idéia.

Para aqueles que, como eu, abdicaram do automóvel, a vida de pedestre denota-se como um relicário da experiência cotidiana, desde que você tenha o olhar devidamente aguçado para tais peculiaridades. Ou apenas, mau humor matinal [o que é o meu caso].

A vida do pedestre não é fácil, mas ele está ao ar livre. Já o motorista, pobre motorista: sobre quatro rodas, uma triste rotina claustrofóbica e só.