Ontem, depois de um truculento dia de trabalho, restava-me a comemoração do aniversário de uma colega no Bar Cardoso. Noite quente e bonita que não merecia pessoas enfurnadas dentro de suas casas… tampouco de seus carros.

Precisei passar em casa para devolver alguns DVD´s na locadora antes de ir para o Bar. Aproveitei para trocar a roupa social que me oprime por um belo e velho jeans batido que diz tão mais sobre mim do que qualquer outra peça de roupa. Feliz da vida, fui andando pela Teodoro Sampaio rumo à locadora quando me deparei com uma cena que certamente passou despercebida pela maioria dos transeuntes, mas não a mim, eu, pedestre nesse caos paulistano: enquanto eu caminhava, por um motivo qualquer, senti uma imensa felicidade por estar andando, o caminho indo, indo, indo… E cruzava com outros pedestres que, ainda com suas devidas pressas, também iam. Caminhavam, moviam-se, trombavam-se e iam-se. Para suas casas, ou talvez para um bar como eu também iria dali a instantes, ou para a faculdade ou para qualquer lugar. Todos nós [ou quase] tínhamos um lugar para ir. E estávamos indo. Livres.

Depois desse devaneio bobo, não pude conter a curiosidade de olhar para os carros naquela imensa fila que tomava conta da rua. Entre ônibus e motos, lá estavam os motoristas: encarcerados sobre quatro rodas, com a peculiar expressão de desolação daqueles que não podem simplesmente abandonar seus carros e sair, livre, como nós pedestres. Um trânsito estático, de rodas imóveis, simplesmente não saí-se de seu lugar. Eram olhares perdidos, cotovelos cansados que apoiavam cabeças tristonhas, suspiros enfastiados e olhos esfregados como se aquilo fosse um pesadelo que acabaria a qualquer instante.

Nessa hora eu senti uma ponta de satisfação, não vou negar: motoristas que não abrem mão do conforto de seus automóveis e que, ali, configuravam-se em suas respectivas prisões.

O que ele não daria para ser um pedestre naquele instante?

Eu, pedestre e livre.

Os Reféns

Março 13, 2009

Eu, pedestre, usuária de ônibus, metrô e dos meus próprios pés, estava a bordo do 5111, aka Terminal Bandeira, na altura do Ibirapuera lendo um livro, ouvindo uma música e de vez em quando olhando a paisagem pela janela em pleno horário ternura [vide 19 horas]. O trânsito zunindo e eu quase entrando em alfa. Tchururu…

Minha roomate liga perguntando onde eu estava e seu eu topava ir lá na USP com ela. Coisa rápida: ela já estava saindo de casa, dali uns 5 minutos chegava no cruzamento da Brigadeiro com a Brasil e tal. Topei, desci do ônibus e fui esperá-la.

Vinte minutos depois, todas as unhas roídas e quatro cigarros fumados, eis que ela surge buzinando a bordo do seu automotor claustrofóbico. Fui correndo até ela porque estava esperando-a em um ponto mais longe e queria aproveitar o sinal vermelho para entrar no carro. Depois do “oi-tudo-bem-como-foi-seu-dia” seguimos em frente e avante até a Juscelino, essa avenida amigável, um ótimo local para fazer novos amigos de dentro do carro, já que o trânsito não anda e sim, estamos todos condenados na Juscelino. E na Faria Lima, e na Rebouças, todas essas grandes vias que até os marcianos conhecem de tanto que se fala delas na rádio de notícias.

Enfim, nosso plano era chegar até a USP mas ei! Como? Você não tem escolha no trânsito. Ou você aceita a sua condição miserável ou você surta, tem uma síncope, pula no capô, destrói o vidro dianteiro, dá uma rasteira no marronzinho da CET… E lá estávamos nós confabulando [minha amiga bem mais preocupada / nervosa / estressada porque estava há muito tempo no trânsito] se continuávamos o percurso ou se dávamos meia-volta rumo a qualquer lugar com menos de 134.245 carros na mesma via.

Depois de um momento de emoção único [já que fizemos uma manobra arriscadíssima saindo da pista da esquerda, rumo à da direita, quatro faixas depois, para entrar numa rua] o carro saiu dos 10 km/h e eu, passageira que era, estava mais preocupada em acalmar minha amiga, esta sim, um poço de estresse, fúria, nervos e pilha.

Resolvemos parar para comer e esperar o trânsito melhorar um pouco. Quando sentamos no boteco, o olhar da minha amiga era de total desolação, angústia e perda. Sim, estava dramático. E eu entendo isso porque já passei por momentos inesquecíveis dentro de um carro: chuva, trânsito, pane elétrica, essas coisas.

E assim estão os paulistanos, minha gente. Dramáticos e com um olhar constantemente triste. Reféns do trânsito, dos estacionamentos, dos postos de combustíveis e de seus próprios relógios.

E eu, que não estava ao volante, mantinha meu humor inalterado!