Pessoas X Carros

junho 21, 2011

Média de muitos carros para muitas pessoas

Não foi acidente

junho 13, 2011

Free bikes!

Antônio Bertolucci, 68 anos, ciclista. Mais uma vítima do trânsito selvagem de São Paulo. Ele foi atropelado hoje, por volta das 09h00 da manhã, na Av. Sumaré (próximo à Praça Celso Fraccaroli) por um ônibus fretado. Foi atingido pelo pneu DIANTEIRO do ônibus, que passou por cima de sua perna, antes de matá-lo.

Imagem extraída do pscycle.wordpress.com

A irresponsabilidade de um motorista NÃO É UM ACIDENTE.

Vai ter manifestação hoje no local às 19 hs. Compareça.

Parem de matar nossos ciclistas.

Liberem as Catracas!

junho 2, 2011

Geral na plataforma esperando pelo milagre do trem. Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress

Eu não moro mais no ABC, mas morei lá por vinte e oito anos da minha vida. Desses, vinte e quatro foram em Santo André e quatro em Mauá, quando eu ainda era criança. Já crescida, fui estudar e trabalhar em São Caetano do Sul. Vivi a maior parte da minha vida na região, já que tenho trinta anos. Uma região que conta com 850 ônibus em 130 linhas que atendem mais de 200 mil, todos os dias.

Durante esse tempo todo, vi meus pais enfrentando (e enfrentei também, já adulta) muita greve de ônibus. MUITA MESMO! Já tive de ir andando da Estação Utinga até a Rua Nazaret, onde trabalhava, a pé. Já voltei tarde da noite da estação de ônibus do centro de Santo André graças a caronas ou dinheiro emprestado para um taxi. Perdi hora, perdi prova, perdi aula. Já tive desconto no salário por conta de atraso causado por greve. É isso que ela faz com as pessoas.

Não estou aqui para criticar o movimento e a organização da greve no ABC. Pelo contrário: acho absolutamente legítimo, válido e justo. A reivindicação da categoria é de 5% de aumento salarial real, aumento do vale-refeição, mudança no plano de carreira e adicional por risco aos funcionários de estação. (Fonte: Folha de São Paulo). Se pararmos para pensar, eles ainda estão pedindo pouco. Motoristas e cobradores de ônibus, em especial, estão constantemente expostos à riscos e aqueles que trabalham em linhas que atendem regiões mais periféricas (e, consequentemente, mais perigosas) saem de casa todos os dias para trabalhar sem a certeza de que irão voltar. E falo isso porque sempre conversei muito com eles, conhecia inclusive alguns pelo nome porque também acho que falta da nossa parte, como passageiros, a percepção de que o motorista e o cobrador são trabalhadores como nós, com família, filhos e contas. Não são máquinas de dirigir nem de trocar dinheiro. E são pessoas que trabalham com medo, com angústia, ganhando uma merreca por mês. Dessa forma, venho aqui ressaltar o meu apoio às reivindicações e a esses trabalhadores que, em sua maioria, são bons homens e mulheres na luta diária pela sobrevivência.

Infelizmente, nem todo mundo consegue perceber a coisa dessa maneira. Porque na outra ponta também estão bons homens e mulheres, trabalhadores, na luta diária pela sobrevivência, que estão tendo o seu direito de ir e vir cerceado. E é difícil pra essa gente entender que por trás de uma paralisação como essa existe também uma reivindicação social, de melhores condições de vida para que nós, passageiros, também possamos ser bem atendidos. Porém, quando para-se tudo e você perde a hora, a aula, a prova ou tem seu dia descontado porque não chegou ao trabalho, a dor bate no contracheque e nessa hora não há discurso que justifique. O povo fica puto. E com toda a razão.

Enquanto isso, o empresariado segue com as mãos nos bolsos (cheios de dinheiro), negociando com sindicatos como se estivessem numa partida de pôquer.  Dessa forma, gostaria de sugerir aos motoristas, cobradores, maquinistas, metroviários e sindicatos que adotem uma alternativa para as greves: por favor, não parem. A população não tem culpa. E não merece ser afetada com uma greve porque já enfrenta ônibus e trens lotados, alguns caindo aos pedaços sem contar no trânsito caótico e no cansaço que os aflige já nas primeiras horas da manhã. Eu, como pedestre que sou, usuária de ônibus, trem e metrô, quero sugerir a vocês que façam uma coisa mais inteligente: LIBEREM AS CATRACAS. É, isso mesmo. Liberem as catracas. Continuem transitando pela cidade, levando e trazendo as pessoas, mas permitam que, por pelo menos um dia, elas circulem pelo transporte público sem desembolsar um tostão. Isso sim atinge o empresariado, caros amigos. Quando a coisa pega no bolso, o tempo fecha, a cuca doi e vocês agem diretamente na causa. Quem tem de ser afetada são as grandes empresas e seus donos que sucateiam diariamente o transporte público da cidade.

São esses os caras que precisam sentir o peso de uma greve. Não a população.

…e ninguém chegará em casa hoje em menos de 122 horas.

E tenho dito.

Ontem, depois de um truculento dia de trabalho, restava-me a comemoração do aniversário de uma colega no Bar Cardoso. Noite quente e bonita que não merecia pessoas enfurnadas dentro de suas casas… tampouco de seus carros.

Precisei passar em casa para devolver alguns DVD´s na locadora antes de ir para o Bar. Aproveitei para trocar a roupa social que me oprime por um belo e velho jeans batido que diz tão mais sobre mim do que qualquer outra peça de roupa. Feliz da vida, fui andando pela Teodoro Sampaio rumo à locadora quando me deparei com uma cena que certamente passou despercebida pela maioria dos transeuntes, mas não a mim, eu, pedestre nesse caos paulistano: enquanto eu caminhava, por um motivo qualquer, senti uma imensa felicidade por estar andando, o caminho indo, indo, indo… E cruzava com outros pedestres que, ainda com suas devidas pressas, também iam. Caminhavam, moviam-se, trombavam-se e iam-se. Para suas casas, ou talvez para um bar como eu também iria dali a instantes, ou para a faculdade ou para qualquer lugar. Todos nós [ou quase] tínhamos um lugar para ir. E estávamos indo. Livres.

Depois desse devaneio bobo, não pude conter a curiosidade de olhar para os carros naquela imensa fila que tomava conta da rua. Entre ônibus e motos, lá estavam os motoristas: encarcerados sobre quatro rodas, com a peculiar expressão de desolação daqueles que não podem simplesmente abandonar seus carros e sair, livre, como nós pedestres. Um trânsito estático, de rodas imóveis, simplesmente não saí-se de seu lugar. Eram olhares perdidos, cotovelos cansados que apoiavam cabeças tristonhas, suspiros enfastiados e olhos esfregados como se aquilo fosse um pesadelo que acabaria a qualquer instante.

Nessa hora eu senti uma ponta de satisfação, não vou negar: motoristas que não abrem mão do conforto de seus automóveis e que, ali, configuravam-se em suas respectivas prisões.

O que ele não daria para ser um pedestre naquele instante?

Eu, pedestre e livre.

17 de Março

março 17, 2009

17 de março. Se você, cidadão labutador, estava saindo do seu honesto trabalho rumo ao seu doce lar às seis da tarde do dia de hoje, sabe bem do que eu estou falando.

O que aconteceu?

Choveu.

Sim, choveu. “Chover”, ah, “chover”. Verbo impessoal porque realmente a chuva não está nem aí pra gente, nos trata com descaso, nos molha quando estamos indo para uma entrevista de emprego, para um primeiro encontro… Impessoal porque é um fenônemo atmosférico mas a menos que eu esteja no quentinho do meu cobertor, no aconchego do meu lar, fenômeno é a mãe! Chove, choveu ou choverá. E a menos que você seja um integrante da banda Cordel do Fogo Encantado, ninguém tem obsessão pela chuva. Não em uma terça-feira às seis da tarde.

Em dias normais, da Avenida Santo Amaro – onde trabalho – até a Juscelino Kubitschek [pelo corredor de ônibus], são 10 minutos. E 10 minutos com aquela fila de ônibus, gente entrando e saindo. Mas hoje não. Nããããããão! Hoje choveu né? Imagina, 10 minutos! Bah! Lá se foram 40 minutos da minha vida, em pé, no ônibus cheio. Juro que a única coisa que eu conseguia pensar era: “Que desperdício de tempo de vida! E nem posso acender um cigarro para encurtá-la antes que tudo fique pior”. Para piorar, não carregava guarda-chuva [porque odeio carregar guarda-chuvas] e era ou me molhar ou torcer para um milagre acontecer, tipo alguém perder a paciência, sair fora, encarar a chuva e um belo assento sorrir para o meu cansado bumbum trabalhador!

E o milagre acontece. Juro. Foi como se uma luz viesse das escuras nuvens chuvosas, iluminando aquele desconfortável banco, ao som de querubins e harpas, um lance meio “óóóóóóóóó”. E ali, bem na minha frente. Premiada! A mega sena do trânsito caótico: um lugar para sentar no ônibus!

Aí tudo ficou beleza, porque eu nem ligo de ficar no ônibus, de carregar bolsas de estranhos, de exercer todo o meu lado bom e generoso. Mas… o trânsito não andava. Realmente NÃO andava. O ônibus não se movia. E o tempo passou. A bateria do meu mp3 acabou. O livro acabou. A bateria do celular acabou. Até as crianças cresceram e nada daquele ônibus andar!

Comecei a ficar com medo. Imaginava uma cena estilo clipe de “Everybody Hurts” do REM. “Ficaremos todos aqui, para sempre!”, era o que eu pensava. Dali dez anos estaríamos todos no mesmo lugar, roupas penduradas nas janelas, uma verdadeira comunidade construída a partir de automotores. Em vinte anos seríamos uma vila. Em cinquenta, uma cidade. Em 100 anos nossos descendentes jamais imaginariam que ali, um dia, houve uma avenida…

Duas horas e meia depois, chego em casa. Fiquei sabendo que algumas pessoas ficaram até a meia-noite esperando pelos trens.

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