Prepare-se: está chovendo em SP…
Setembro 3, 2009
…e ninguém chegará em casa hoje em menos de 122 horas.
E tenho dito.
Os novos cárceres privados
Agosto 6, 2009
Ontem, depois de um truculento dia de trabalho, restava-me a comemoração do aniversário de uma colega no Bar Cardoso. Noite quente e bonita que não merecia pessoas enfurnadas dentro de suas casas… tampouco de seus carros.
Precisei passar em casa para devolver alguns DVD´s na locadora antes de ir para o Bar. Aproveitei para trocar a roupa social que me oprime por um belo e velho jeans batido que diz tão mais sobre mim do que qualquer outra peça de roupa. Feliz da vida, fui andando pela Teodoro Sampaio rumo à locadora quando me deparei com uma cena que certamente passou despercebida pela maioria dos transeuntes, mas não a mim, eu, pedestre nesse caos paulistano: enquanto eu caminhava, por um motivo qualquer, senti uma imensa felicidade por estar andando, o caminho indo, indo, indo… E cruzava com outros pedestres que, ainda com suas devidas pressas, também iam. Caminhavam, moviam-se, trombavam-se e iam-se. Para suas casas, ou talvez para um bar como eu também iria dali a instantes, ou para a faculdade ou para qualquer lugar. Todos nós [ou quase] tínhamos um lugar para ir. E estávamos indo. Livres.
Depois desse devaneio bobo, não pude conter a curiosidade de olhar para os carros naquela imensa fila que tomava conta da rua. Entre ônibus e motos, lá estavam os motoristas: encarcerados sobre quatro rodas, com a peculiar expressão de desolação daqueles que não podem simplesmente abandonar seus carros e sair, livre, como nós pedestres. Um trânsito estático, de rodas imóveis, simplesmente não saí-se de seu lugar. Eram olhares perdidos, cotovelos cansados que apoiavam cabeças tristonhas, suspiros enfastiados e olhos esfregados como se aquilo fosse um pesadelo que acabaria a qualquer instante.
Nessa hora eu senti uma ponta de satisfação, não vou negar: motoristas que não abrem mão do conforto de seus automóveis e que, ali, configuravam-se em suas respectivas prisões.
O que ele não daria para ser um pedestre naquele instante?
Eu, pedestre e livre.
17 de Março
Março 17, 2009
17 de março. Se você, cidadão labutador, estava saindo do seu honesto trabalho rumo ao seu doce lar às seis da tarde do dia de hoje, sabe bem do que eu estou falando.
O que aconteceu?
Choveu.
Sim, choveu. “Chover”, ah, “chover”. Verbo impessoal porque realmente a chuva não está nem aí pra gente, nos trata com descaso, nos molha quando estamos indo para uma entrevista de emprego, para um primeiro encontro… Impessoal porque é um fenônemo atmosférico mas a menos que eu esteja no quentinho do meu cobertor, no aconchego do meu lar, fenômeno é a mãe! Chove, choveu ou choverá. E a menos que você seja um integrante da banda Cordel do Fogo Encantado, ninguém tem obsessão pela chuva. Não em uma terça-feira às seis da tarde.
Em dias normais, da Avenida Santo Amaro – onde trabalho – até a Juscelino Kubitschek [pelo corredor de ônibus], são 10 minutos. E 10 minutos com aquela fila de ônibus, gente entrando e saindo. Mas hoje não. Nããããããão! Hoje choveu né? Imagina, 10 minutos! Bah! Lá se foram 40 minutos da minha vida, em pé, no ônibus cheio. Juro que a única coisa que eu conseguia pensar era: “Que desperdício de tempo de vida! E nem posso acender um cigarro para encurtá-la antes que tudo fique pior”. Para piorar, não carregava guarda-chuva [porque odeio carregar guarda-chuvas] e era ou me molhar ou torcer para um milagre acontecer, tipo alguém perder a paciência, sair fora, encarar a chuva e um belo assento sorrir para o meu cansado bumbum trabalhador!
E o milagre acontece. Juro. Foi como se uma luz viesse das escuras nuvens chuvosas, iluminando aquele desconfortável banco, ao som de querubins e harpas, um lance meio “óóóóóóóóó”. E ali, bem na minha frente. Premiada! A mega sena do trânsito caótico: um lugar para sentar no ônibus!
Aí tudo ficou beleza, porque eu nem ligo de ficar no ônibus, de carregar bolsas de estranhos, de exercer todo o meu lado bom e generoso. Mas… o trânsito não andava. Realmente NÃO andava. O ônibus não se movia. E o tempo passou. A bateria do meu mp3 acabou. O livro acabou. A bateria do celular acabou. Até as crianças cresceram e nada daquele ônibus andar!
Comecei a ficar com medo. Imaginava uma cena estilo clipe de “Everybody Hurts” do REM. “Ficaremos todos aqui, para sempre!”, era o que eu pensava. Dali dez anos estaríamos todos no mesmo lugar, roupas penduradas nas janelas, uma verdadeira comunidade construída a partir de automotores. Em vinte anos seríamos uma vila. Em cinquenta, uma cidade. Em 100 anos nossos descendentes jamais imaginariam que ali, um dia, houve uma avenida…
Duas horas e meia depois, chego em casa. Fiquei sabendo que algumas pessoas ficaram até a meia-noite esperando pelos trens.