O assento é mesmo preferencial?
julho 20, 2011
Não faz muito tempo, assisti no Fantástico uma reportagem onde, com uma câmera escondida, um jornalista andava de ônibus por várias cidades brasileiras como São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte (talvez exista mais alguma, mas não me recordo agora) junto com uma velhinha, apenas para observar a reação das pessoas ao ver a senhorinha em pé enquanto marmanjos e marmanjas ocupavam o assento preferencial dos ônibus (queria ter encontrado o link para publicar aqui, mas infelizmente não localizei). A medida era simples: quanto tempo demoraria até que alguém se levantasse do assento preferencial (ou de qualquer outro) e cedesse seu assento para a tal velhinha? Por incrível que pareça, São Paulo foi considerada a cidade mais “educada” nesse sentido.
Apesar da tal matéria, quem anda de ônibus sabe bem que a coisa não é exatamente assim no dia-a-dia. Infelizmente, ainda é recorrente o descaso com os idosos, principalmente quando o horário é de pico e o ônibus está lotado. Nessas horas, vale a lei do mais forte. Não importa se é homem, mulher, idoso, grávida ou o escambau. Vagou o assento, é meu e dane-se o mundo.
Hoje não foi diferente. Saí mais cedo do trabalho para ir a uma reunião. Eram cinco da tarde, aquele horário TERNURA nos busões e metrôs de São Paulo. Peguei o “Rio Pequeno” pois queria descer ali na Faria Lima com a Teodoro pra pegar o metrô novo, aquele da linha amarela, e ir para a Av. Paulista. Quando entrei no ônibus ele estava razoavelmente cheio, mas transitável. Eu não tinha a menor esperança de me sentar, então tratei de achar um canto pra ficar numa boa. Mas a cada ponto mais e mais gente entrava, até que a situação ficou praticamente insuportável.
Nesse meio tempo aparece uma senhora e para ao meu lado. Olhos cansados, cabelos brancos desgrenhados, presos em um coque. Arrisco-me a dizer até que havia um quê de uma melancolia muito profunda em seu olhar. Roupas simples, uma sacola. Pude ver que suas mãos eram bem maltratadas. Não fiz mesura, tasquei logo de cara: “Quantos anos tem a senhora?”. “Sessenta e quatro, minha filha…”. “E andando nesse ônibus lotado, né?”. “Fazer o quê…?”. E deu dois tapinhas na minha mão, que firme e forte segurava o ferro do busão. Bem à nossa frente, um par de assentos preferenciais. Na janela, uma negona robusta observava a paisagem o Itaim. No corredor, uma senhora que me pareceu ser nordestina, também bastante humilde, mas bem longe dos sessenta anos. Soltei uma indireta, “nossa, será que ninguém vai dar um lugar pra senhora?”. “Ih, minha filha, já tô acostumada…”. Nessa hora, me cortou o coração. Uma mulher atrás de mim começou a falar sobre o desrespeito com os mais velhos. Olhei para as mulheres sentadas à minha frente e perguntei educadamente se uma delas poderia ceder seu lugar àquela senhora. A negona fez que nem me viu. A outra, resmungou dizendo que “estava cansada porque tinha trabalhado o dia todo”.
Oras! Aquela senhora que estava ali, em pé e espremida ao meu lado, já deveria estar cansada há, NO MÍNIMO, uns 15 anos a mais que qualquer um ali daquele ônibus. Senti vergonha por aquelas mulheres que não se dispuseram a ceder seus lugares. Eu sei que o ônibus estava cheio, é foda, eu sei, eu sei. Mas aquela velhinha tinha o DIREITO ADQUIRIDO de se sentar num daqueles assentos. E o aviso é claro: na AUSÊNCIA de pessoas nas condições citadas (grávidas, deficientes, idosos, pessoas com criança de colo…) o uso é livre. Mas não era o caso.
Depois da infeliz declaração da mulher sentada no assento do corredor, uma onda de indignação proveniente das outras mulheres que estavam em pé no ônibus tomou conta do ambiente. “Que falta de cidadania!”. “Elas acham que nunca vão ficar velhas na vida!”. “Que absurdo!”. Não me aguentei, lógico, e falei em alto e bom som pra todo mundo no busão: “Então gente! Pessoal do assento preferencial, aê: alguém pode fazer a gentileza de ceder seu lugar a essa senhora aqui?”. Na mesma hora uma garota (que não estava em um assento preferencial) se levantou para ceder o lugar mas fiz questão de dizer a ela para continuar ali. Uma moça sentada perto da porta e que lia um livro até então, se dispôs na hora e ainda pediu desculpas dizendo que se tivesse visto a senhora antes, certamente teria cedido o lugar.
A velhinha me olhou e disse: “Não minha filha, não precisa não…”. “Precisa sim, vai lá, por favor. Fiz isso pela senhora”. Um grupo de mulheres, em coro, ficou incentivando a vovó a ir para o assento preferencial, até que ela foi. Desbravando aquele mundareu de gente, chegou lá. E eu pude ver o suspiro de alívio dela quando se sentou. Esticou as pernas, arrumou o cabelo e esfregou os olhos. Agarrou sua sacola e deixou a cabeça cair para trás. Fechou os olhos.
Nessa hora eu pensei na minha mãe, que acabou de chegar aos cinquenta anos. Ainda vai ficar em pé em ônibus, trens e metrôs por muitos anos. Pensei muito nela. E no quanto eu gostaria que outras pessoas pudessem fazer isso por ela quando estiver velhinha também.

Olá! Fiquei sabendo do seu blog através de um post seu no facebook da LibVee… muito bom o blog.
Enfim, comentando sobre esse ultimo post: primeiramente, nem deveria haver assento preferencial. Acho uma vergonha absurda tem de existir assento preferencial nos transportes publicos brasileiros.
Já deveria estar enraizado na cultura do brasileiro de ficar em pé no transporte público, deixando o assento livre aos que necessitam (idosos, gestantes, deficientes).
Acho vergonhoso a falta de cidadania da maior parte da população brasileira (em especial da paulistana, que é a que observo mais, por conviver em São Paulo).
Uma vez estava em um metrô em pé, e observei a seguinte situação: 3 senhores de idade em pé, e sentados 4 pessoas jovens e adultos, mas de boa saúde. Um dos sentados lia um livro, outro dormia, outra parecia fingir dormir e outra mexendo no celular e escutando musica… parece piada, né? Fazem de tudo para não ceder lugar a pessoa que precisa. Senti vergonha de estar naquele vagão (mas fiquei por pouco tempo, logo cheguei na Sé).
Nem com “assento preferencial” as pessoas dão a preferência a quem precisa… absurdo. Coisa que nem deveria existir, as pessoas deveriam ter um senso de cidadania e sempre ceder o assento quando vêem uma pessoa idosa/gestante/deficiente… elas devem imaginar que nunca vão ser idosas na vida ou que nunca ocorrerá um acidente.
Não posso deixar de registrar que os dois últimos parágrafos me emocionaram. Mas queria compartilhar uma passagem que protagonizei dentro do metro em Moscou, na Russia. Estava sentado, junto com um russo que estava me hospedando por lá e tinha seus 50 e tantos anos, em assentos ão preferenciais, até porque não me lembro de havê-los!
Entrou uma senhora gorda, longe de ser velhinha, mas com as dificuldades que o peso impõem. Me levantei e, sem falar uma palavra em russo, ou mesmo entender, indiquei a ela que deveria se sentar ali (para quem não sabe, o metro de Moscou é lotado a toda e qualquer hora do dia – um assento é luxo).
Ela sentou-se e comecou a bradar palavras em alto e bom russo (como todos eles fazem). Mubin (o que me recebia) contou-me, depois, que ela mostrava aos outros passageiros que era necessário um estrangeiro dentro do trem para ter um gesto educado. Que os russos são todos uns bla bla bla….
Deixo as conclusões com cada um…
Falta de Deus no coração das pessoas. Simples assim. Longe de Deus o homem vira animal iracional.
Me desculpe, sou ateu há mais de 10 anos, não tenho deus em lugar nenhum da minha vida e / ou corpo, e garanto que sou muito mais racional que muitos católicos e evangélicos. Falta sim tolerância e solidariedade! Abraço a todos!