Imagine-se em um ônibus cheio. Agora multiplique a quantidade de pessoas que enchem aquele ônibus por três. Sim, por três porque choveu, o ônibus atrasou e todo mundo está se espremendo naquele corredor de calor humano. Eu sou uma das maiores defensoras do transporte público, mas não vou ser hipócrita: em dia de chuva eu bem que gostaria de estar no conforto do meu cárcere privado sobre quatro rodas, ainda sabendo que na tentativa de um assalto eu não teria para onde correr. Não que no ônibus eu tenha [caso isso aconteça]. É que nele pelo menos tem alguém dirigindo por mim e eu posso compartilhar do pânico com outros passageiros.

Voltando ao ônibus cheio: demasiado desconforto, mais pelo vai-e-vem dos passageiros que entram e saem do que necessariamente pelo acumulado de pessoas. Sua bolsa sobe, desce e volta e o infeliz sentado à sua frente nem para perguntar se você quer que ele carregue-a por alguns minutos. Não… Ele prefere tomar bolsada na cara! Se eu tô sentada, já falo logo de cara: “Quer que eu segure sua bolsa/caderno/mala/mochila?”. Sim. Prefiro carregar coisas a ter coisas batendo em mim. Ônibus cheio. Cheio.Trânsito. “Céus, meu ponto não chega nunca!”. Nunca pensei que poderia desejar tanto um assento de ônibus. Estou a postos, olhando para todos os lados, pronta para ocupar o primeiro lugar que surgir, nem que para isso eu tenha de passar por cima da garota de blusa amarela que também olha para todos os cantos do ônibus, com tanta ou mais voracidade quanto eu para ocupar o primeiro lugar que ficar vago. Haja o que houver, doa a quem doer.

Percebo que estou começando a ficar fora de mim. Ao fundo, o cobrador está com um daqueles celulares que tocam música alta, bem alta. E aqui, reitero uma afirmação que me acompanha desde os idos tempos da adolescência:

“A potência do som de qualquer aparelho sempre será inversamente proporcional à qualidade da música que será executada por ele”.

E o que pode ser pior que um ônibus cheio, em uma noite de chuva e com trânsito, depois de um cansativo dia de trabalho? Voltar para casa ouvindo: “você não vale nada mas eu gosto de você”. E eu não tinha escolha, tampouco escapatória: MP3 sem bateria, chance zero de concentração em qualquer livro ou revista que me acompanhavam e ninguém para quem eu pudesse reclamar naquele momento. Sim, porque às vezes o ato de reclamar já é suficiente para aliviar o coração.

Decidi me concentrar. Fiz um setlist mental que começava com “Molly’s Lips”, na versão do Nirvana, seguido de “Judy Is A Punk” porque eu estou em um momento Ramones bem bobo, mas estou. Então fiquei lá, mentalmente cantando “She said, She’d take me anywhere, She’d take me anywhere…” Passei bons minutos me concentrando na canção, repetindo mentalmente as estrofes e tentando me lembrar de todos os riffs de guitarra, berros roucos e chacoalhões de cabeça do Kurt Cobain… mas não deu. Não deu!

A gota d’ água foi quando começou uma música sertaneja que falava sobre “beber, cair e levantar”. Não. Aí já é demais. Eu tinha três opções:

1 – Tentar ter uma conversa civilizada com o cobrador e dissuadi-lo de continuar ouvindo àquele tipo de música
2 – Ter um surto psicótico no qual eu bateria repetidamente com a cabeça do cobrador contra a janela, preferencialmente na parte em que está localizado o puxador
3 – Descer do ônibus

Claro, pessoa civilizada que sou, desci do ônibus. Bem puta da vida, mas desci. Enfim. Eu gosto dos ônibus. Gosto quando alguém dirige para mim e eu posso ler ou dormir. Caso contrário, eu, pedestre, vou a pé comigo mesma e com o meu setlist mental.

Ontem, depois de um truculento dia de trabalho, restava-me a comemoração do aniversário de uma colega no Bar Cardoso. Noite quente e bonita que não merecia pessoas enfurnadas dentro de suas casas… tampouco de seus carros.

Precisei passar em casa para devolver alguns DVD´s na locadora antes de ir para o Bar. Aproveitei para trocar a roupa social que me oprime por um belo e velho jeans batido que diz tão mais sobre mim do que qualquer outra peça de roupa. Feliz da vida, fui andando pela Teodoro Sampaio rumo à locadora quando me deparei com uma cena que certamente passou despercebida pela maioria dos transeuntes, mas não a mim, eu, pedestre nesse caos paulistano: enquanto eu caminhava, por um motivo qualquer, senti uma imensa felicidade por estar andando, o caminho indo, indo, indo… E cruzava com outros pedestres que, ainda com suas devidas pressas, também iam. Caminhavam, moviam-se, trombavam-se e iam-se. Para suas casas, ou talvez para um bar como eu também iria dali a instantes, ou para a faculdade ou para qualquer lugar. Todos nós [ou quase] tínhamos um lugar para ir. E estávamos indo. Livres.

Depois desse devaneio bobo, não pude conter a curiosidade de olhar para os carros naquela imensa fila que tomava conta da rua. Entre ônibus e motos, lá estavam os motoristas: encarcerados sobre quatro rodas, com a peculiar expressão de desolação daqueles que não podem simplesmente abandonar seus carros e sair, livre, como nós pedestres. Um trânsito estático, de rodas imóveis, simplesmente não saí-se de seu lugar. Eram olhares perdidos, cotovelos cansados que apoiavam cabeças tristonhas, suspiros enfastiados e olhos esfregados como se aquilo fosse um pesadelo que acabaria a qualquer instante.

Nessa hora eu senti uma ponta de satisfação, não vou negar: motoristas que não abrem mão do conforto de seus automóveis e que, ali, configuravam-se em suas respectivas prisões.

O que ele não daria para ser um pedestre naquele instante?

Eu, pedestre e livre.