Os Reféns

Março 13, 2009

Eu, pedestre, usuária de ônibus, metrô e dos meus próprios pés, estava a bordo do 5111, aka Terminal Bandeira, na altura do Ibirapuera lendo um livro, ouvindo uma música e de vez em quando olhando a paisagem pela janela em pleno horário ternura [vide 19 horas]. O trânsito zunindo e eu quase entrando em alfa. Tchururu…

Minha roomate liga perguntando onde eu estava e seu eu topava ir lá na USP com ela. Coisa rápida: ela já estava saindo de casa, dali uns 5 minutos chegava no cruzamento da Brigadeiro com a Brasil e tal. Topei, desci do ônibus e fui esperá-la.

Vinte minutos depois, todas as unhas roídas e quatro cigarros fumados, eis que ela surge buzinando a bordo do seu automotor claustrofóbico. Fui correndo até ela porque estava esperando-a em um ponto mais longe e queria aproveitar o sinal vermelho para entrar no carro. Depois do “oi-tudo-bem-como-foi-seu-dia” seguimos em frente e avante até a Juscelino, essa avenida amigável, um ótimo local para fazer novos amigos de dentro do carro, já que o trânsito não anda e sim, estamos todos condenados na Juscelino. E na Faria Lima, e na Rebouças, todas essas grandes vias que até os marcianos conhecem de tanto que se fala delas na rádio de notícias.

Enfim, nosso plano era chegar até a USP mas ei! Como? Você não tem escolha no trânsito. Ou você aceita a sua condição miserável ou você surta, tem uma síncope, pula no capô, destrói o vidro dianteiro, dá uma rasteira no marronzinho da CET… E lá estávamos nós confabulando [minha amiga bem mais preocupada / nervosa / estressada porque estava há muito tempo no trânsito] se continuávamos o percurso ou se dávamos meia-volta rumo a qualquer lugar com menos de 134.245 carros na mesma via.

Depois de um momento de emoção único [já que fizemos uma manobra arriscadíssima saindo da pista da esquerda, rumo à da direita, quatro faixas depois, para entrar numa rua] o carro saiu dos 10 km/h e eu, passageira que era, estava mais preocupada em acalmar minha amiga, esta sim, um poço de estresse, fúria, nervos e pilha.

Resolvemos parar para comer e esperar o trânsito melhorar um pouco. Quando sentamos no boteco, o olhar da minha amiga era de total desolação, angústia e perda. Sim, estava dramático. E eu entendo isso porque já passei por momentos inesquecíveis dentro de um carro: chuva, trânsito, pane elétrica, essas coisas.

E assim estão os paulistanos, minha gente. Dramáticos e com um olhar constantemente triste. Reféns do trânsito, dos estacionamentos, dos postos de combustíveis e de seus próprios relógios.

E eu, que não estava ao volante, mantinha meu humor inalterado!

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