17 de Março
Março 17, 2009
17 de março. Se você, cidadão labutador, estava saindo do seu honesto trabalho rumo ao seu doce lar às seis da tarde do dia de hoje, sabe bem do que eu estou falando.
O que aconteceu?
Choveu.
Sim, choveu. “Chover”, ah, “chover”. Verbo impessoal porque realmente a chuva não está nem aí pra gente, nos trata com descaso, nos molha quando estamos indo para uma entrevista de emprego, para um primeiro encontro… Impessoal porque é um fenônemo atmosférico mas a menos que eu esteja no quentinho do meu cobertor, no aconchego do meu lar, fenômeno é a mãe! Chove, choveu ou choverá. E a menos que você seja um integrante da banda Cordel do Fogo Encantado, ninguém tem obsessão pela chuva. Não em uma terça-feira às seis da tarde.
Em dias normais, da Avenida Santo Amaro – onde trabalho – até a Juscelino Kubitschek [pelo corredor de ônibus], são 10 minutos. E 10 minutos com aquela fila de ônibus, gente entrando e saindo. Mas hoje não. Nããããããão! Hoje choveu né? Imagina, 10 minutos! Bah! Lá se foram 40 minutos da minha vida, em pé, no ônibus cheio. Juro que a única coisa que eu conseguia pensar era: “Que desperdício de tempo de vida! E nem posso acender um cigarro para encurtá-la antes que tudo fique pior”. Para piorar, não carregava guarda-chuva [porque odeio carregar guarda-chuvas] e era ou me molhar ou torcer para um milagre acontecer, tipo alguém perder a paciência, sair fora, encarar a chuva e um belo assento sorrir para o meu cansado bumbum trabalhador!
E o milagre acontece. Juro. Foi como se uma luz viesse das escuras nuvens chuvosas, iluminando aquele desconfortável banco, ao som de querubins e harpas, um lance meio “óóóóóóóóó”. E ali, bem na minha frente. Premiada! A mega sena do trânsito caótico: um lugar para sentar no ônibus!
Aí tudo ficou beleza, porque eu nem ligo de ficar no ônibus, de carregar bolsas de estranhos, de exercer todo o meu lado bom e generoso. Mas… o trânsito não andava. Realmente NÃO andava. O ônibus não se movia. E o tempo passou. A bateria do meu mp3 acabou. O livro acabou. A bateria do celular acabou. Até as crianças cresceram e nada daquele ônibus andar!
Comecei a ficar com medo. Imaginava uma cena estilo clipe de “Everybody Hurts” do REM. “Ficaremos todos aqui, para sempre!”, era o que eu pensava. Dali dez anos estaríamos todos no mesmo lugar, roupas penduradas nas janelas, uma verdadeira comunidade construída a partir de automotores. Em vinte anos seríamos uma vila. Em cinquenta, uma cidade. Em 100 anos nossos descendentes jamais imaginariam que ali, um dia, houve uma avenida…
Duas horas e meia depois, chego em casa. Fiquei sabendo que algumas pessoas ficaram até a meia-noite esperando pelos trens.
Os Reféns
Março 13, 2009
Eu, pedestre, usuária de ônibus, metrô e dos meus próprios pés, estava a bordo do 5111, aka Terminal Bandeira, na altura do Ibirapuera lendo um livro, ouvindo uma música e de vez em quando olhando a paisagem pela janela em pleno horário ternura [vide 19 horas]. O trânsito zunindo e eu quase entrando em alfa. Tchururu…
Minha roomate liga perguntando onde eu estava e seu eu topava ir lá na USP com ela. Coisa rápida: ela já estava saindo de casa, dali uns 5 minutos chegava no cruzamento da Brigadeiro com a Brasil e tal. Topei, desci do ônibus e fui esperá-la.
Vinte minutos depois, todas as unhas roídas e quatro cigarros fumados, eis que ela surge buzinando a bordo do seu automotor claustrofóbico. Fui correndo até ela porque estava esperando-a em um ponto mais longe e queria aproveitar o sinal vermelho para entrar no carro. Depois do “oi-tudo-bem-como-foi-seu-dia” seguimos em frente e avante até a Juscelino, essa avenida amigável, um ótimo local para fazer novos amigos de dentro do carro, já que o trânsito não anda e sim, estamos todos condenados na Juscelino. E na Faria Lima, e na Rebouças, todas essas grandes vias que até os marcianos conhecem de tanto que se fala delas na rádio de notícias.
Enfim, nosso plano era chegar até a USP mas ei! Como? Você não tem escolha no trânsito. Ou você aceita a sua condição miserável ou você surta, tem uma síncope, pula no capô, destrói o vidro dianteiro, dá uma rasteira no marronzinho da CET… E lá estávamos nós confabulando [minha amiga bem mais preocupada / nervosa / estressada porque estava há muito tempo no trânsito] se continuávamos o percurso ou se dávamos meia-volta rumo a qualquer lugar com menos de 134.245 carros na mesma via.
Depois de um momento de emoção único [já que fizemos uma manobra arriscadíssima saindo da pista da esquerda, rumo à da direita, quatro faixas depois, para entrar numa rua] o carro saiu dos 10 km/h e eu, passageira que era, estava mais preocupada em acalmar minha amiga, esta sim, um poço de estresse, fúria, nervos e pilha.
Resolvemos parar para comer e esperar o trânsito melhorar um pouco. Quando sentamos no boteco, o olhar da minha amiga era de total desolação, angústia e perda. Sim, estava dramático. E eu entendo isso porque já passei por momentos inesquecíveis dentro de um carro: chuva, trânsito, pane elétrica, essas coisas.
E assim estão os paulistanos, minha gente. Dramáticos e com um olhar constantemente triste. Reféns do trânsito, dos estacionamentos, dos postos de combustíveis e de seus próprios relógios.
E eu, que não estava ao volante, mantinha meu humor inalterado!
Popularizando o Taxi
Março 4, 2009
Hoje tive que dar uma palestra em Santo Amaro e como estava a trabalho, tive a ida e a volta subsidiadas e meu transporte foi fresquinho e gostoso a bordo de um taxi!
[É importante ressaltar que taxi ainda é um luxo para a classe operária principalmente em São Paulo, essa cidade ternura onde ninguém chega em menos de quarenta minutos a qualquer destino com mais de 3 km de distância da origem. Isso é fato. E isso também significa que qualquer taxi daqui até a esquina te empobrece em, no mínimo, R$ 10,00].
Eu gosto de taxi, não só pelo conforto [óbvio] mas porque os taxistas são sempre simpaticões, numas de querer ganhar o cliente e tal e eu não me importo de ir batendo papo, não sou daquelas que abre o jornal no banco de trás e trata o motorista como um lacaio. Mas nessa minha ida rolou um lance bem estranho porque peguei um taxista mudo que de vez em quando resmungava alguma coisa, “porque esse trânsito de São Paulo está cada vez pior” e “esses corredores de ônibus não servem pra nada” e também “esses motoqueiros são uns canibais”, frase essa que me deixou bastante intrigada porque acredito que o intuito dele era mais o de indicar uma androfagia provocada pelo trânsito do que especificamente motoboys comendo churrasquinho de gente.
Já na volta a coisa foi bem diferente: o motorista era todo amigo do mundo, cheio de opiniões, conceitos, temáticas e metodologias a respeito da vida cotidiana e em meio à Marginal Pinheiros recaímos sobre o debate único e crucial quando se está na terra da garoa: O TRÂNSITO.
É lógico que São Paulo é caótica, a cidade não comporta mais carros e ainda assim, a indústria automobilística teima em te dizer que você só será uma pessoa melhor, mais digna, respeitada e feliz quando se puser enclausurada sobre quatro rodas. E ainda que comprar carro esteja fácil, mantê-lo, meu nego, não é tão simples assim…
Dentro de toda essa questão do custo X benefício proporcionado pelo carro e de todos os entraves que a cidade oferece para quem opta pelo automóvel, sr. taxista e eu chegamos à terminante conclusão que nossa sábia Angélica, em seus idos tempos adolescentes, nos jogou na cara em uma quase premoniação sobre os tempos estavam por vir: vou-de-taxi-ce-sabe-tava-morrendo-de-saudade. Ou seja, o taxi pode ser uma parte efetiva da solução para o trânsito de São Paulo.
E aqui volto na questão de que, ainda que comprar um carro seja bem fácil e viável em tempos pós-modernos, mantê-lo é tarefa para poucos: se você trabalha com o carro, ainda que o use somente para a locomação de ida e volta, os custos com estacionamento, combustível e manutenção são bastante relevantes. Quem tem condições de manter um automóvel sob essa e outras circunstâncias, PODE SIM usufruir do taxi para a locomoção diária porque tem condições financeiras para isso. Quem anda de carro todo dia não vai querer andar de ônibus, talvez tope um metrô, mas ônibus nunca e o taxi – de certa forma – oferece o “conforto” proporcionado pelo carro, travestido de transporte público. E são carros que rodam o dia todo, eles não vão entupir a cidade de repente, das 07h00 às 10h00 ou das 17h00 às 20h00. Quem tem grana para manter um carro, tem grana para ir de taxi. Taxis rodam pelos corredores, você não precisa preocupar-se com o trânsito, pode ir lendo, economiza com seguro, vai até dormindo. E pensando em um mundo perfeito, os taxis poderiam ter tarifas reduzidas durante o horário do rodízio para estimular seu uso não só entre os abonados, mas também entre nós, o proletariado em geral.
Lógico que essa não é uma SOLUÇÃO para o trânsito, mas acredito de verdade que, a curto e médio prazo, poderia ser uma alternativa bem viável para a cidade.
E o taxista disse que topava.