Idéia sensacional. Para motoristas e pedestres!

Na Estação da Luz, naquela entrada/saída que dá para a Pinacoteca e para o Museu da Língua Portuguesa tem um piano. Um piano que fica ali, o tempo todo, para quem quiser tocar.

Eis que hoje, saindo da Pinacoteca e entrando na Estação para voltar para casa, a cena mais surreal:

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Um mendigo se apropriou do piano e ficou tocando. Tocando muito e muito bem.

Isso me fez ficar pensando em um monte de coisas. E ao mesmo tempo que foi lindo ver isso também foi muito angustiante. Assim como foi angustiante sair da exposição do Matisse e ver todas aquelas pessoas deitadas, sujas, esquecidas e invisíveis ali na entrada da Estação. O contraste da arte e do belo com esse duro choque de realidade. Eu não consigo passar despercebida por isso.

Você! Você aí, meu caro motorista! Você, senhor-quatro-rodas, magnânimo motorizado! Você já entrou na estação Consolação do metrô às seis e meia da tarde? Não? Ah… então, deixa eu te contar…

A estação Consolação do metrô às seis e meia da tarde, assim como a maioria das outras estações de metrô de SP [alô lô linha amarela, aquele abraço!] é simplesmente ENTUPIDA de gente. Ainda assim, é um fluxo, a coisa vai. Um entra-e-sai de humanos que flui escadaria abaixo e acima. Mas não é isso que interessa, caro leitor motorizado. Eu quero aqui falar é da FILA DO BILHETE ÚNICO.

Nas estações de metrô, cubículos são colocados estrategicamente em cantinhos da estação para que usuários possam recarregar seus queridos bilhetes únicos, essa maravilha marthiana, formando filas que vão até Machu Pichu. O sistema vive dando problema, tem vezes que o cartão de débito não passa e os atendentes não tem lá a expressão mais simpática do mundo mas… tudo por três horas de busão a módicos R$ 2,30.

E às seis da tarde DESTA NOITE, lá estou eu, adentrando as dependências do metrô Consolação, feliz e pimpona imaginando que teriam aí umas 50 pessoas na minha frente mas… bem, “a fila anda rápido”. “E, ei! Tem a máquina Self Service, quem sabe eu não recarrego o bilhete lá?”.

Essas máquinas que eu chamo de “Self Service” são, na verdade, máquinas para recarga eletrônica onde o próprio usuário coloca uma nota de R$2, R$ 5,00, R$ 10,00 ou R$ 20,00, insere seu cartão e voilà! Em menos de 20 segundos seu Bilhete Único está recarregado e você, cansado ou cansada de um dia exaustivo de trabalho, vai para o conforto do seu lar na maior felicidade.

Não bastasse UMA, a estação Consolação tem DUAS máquinas dessas. Agora, você me pergunta: se a estação Consolação é dotada de tal sistema, por que cargas d´água a fila do Bilhete Único tem 50 pessoas?

E eu te respondo, caro leitor motorizado: porque essas máquinas simplesmente NÃO FUNCIONAM!

Enquanto eu estava lá, na fila que [desta vez] não andava, comecei a ficar indignada a cada vez que pensava nisso. Pedi para uma mocinha guardar meu lugar na fila e fui até uma das funcionárias do metrô que batia papo por ali:

- Oi, tudo bem. Deixa eu fazer uma pergunta… se aquelas máquinas ali, de recarga automática, não funcionam, por que é que elas estão lá?
- Olha moça, aquelas máquinas são da SP Trans. A gente não é responsável.
- Não dá nem pra chamar alguém pra fazer a manutenção?
- O metrô não é responsável, senhora…
- Mas cede o espaço certo?
- Certo.
- Então, se vai alguém se hospedar na sua casa e essa pessoa morre, você deixa o corpo lá, apodrecendo e fedendo…?
- Senhora…
- Tá, já entendi. Obrigada.

E eu sempre me surpreendo com gente tapada, não aprendo nunca…

Voltei pra fila e resolvi ligar no 156. Escolhi a opção “3″, para “reclamações” e fui atendida por uma tal de Luana:

- Oi Luana. Eu tô aqui na estação Consolação do metrô, em uma fila gigantesca para recarregar o Bilhete Único sendo que aqui tem duas máquinas de recarga eletrônica que não funcionam. E, assim, Luana… Se elas não funcionam, por que é que elas estão aqui?
- Senhora, vou transferir a sua solicitação para a área responsável.

- SP Trans, Lidiane, boa noite?
- Oi Lidiane. Eu tô aqui na estação Consolação do metrô, em uma fila gigantesca para recarregar o Bilhete Único sendo que aqui tem duas máquinas de recarga eletrônica que não funcionam. E, assim… Se elas não funcionam, por que é que elas estão aqui?
- Não sei responder, senhora.

[Pelo menos, essa foi sincera].

- E quem é que sabe, Lidiane?
- A senhora deve fazer a reclamação em um posto da SP Trans.
- E onde eu encontro um posto da SP Trans?
- Nos terminais da SP Trans.
- Tá, mas me fala UM terminal da SP Trans.
- Terminal Lapa, senhora.
- Tá. Agora, só uma última pergunta…
- Pois não, senhora.
- Se você não pode me ajudar, este canal de reclamação serve pra quê mesmo?
- Serve para reclamações, mas não para este tipo de reclamação.
- Tá, obrigada.

Desliguei o telefone, fui à bilheteria comum e perdi minha integração. Paguei R$ 2,55 para poder chegar em casa logo. Esse não foi o preço da minha felicidade tampouco o da minha indignação ao ver aquele povo todo sendo desrespeitada tão descaradamente quando um simples telefonema poderia minimizar o problema. R$ 2,55 é o que eu, você e muitos outros usuários do metrô pagam diariamente para que funcionários fiquem batendo papo ou dizendo simplesmente “não sei”.

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Isso foi realmente engraçado…

…e ninguém chegará em casa hoje em menos de 122 horas.

E tenho dito.

Imagine-se em um ônibus cheio. Agora multiplique a quantidade de pessoas que enchem aquele ônibus por três. Sim, por três porque choveu, o ônibus atrasou e todo mundo está se espremendo naquele corredor de calor humano. Eu sou uma das maiores defensoras do transporte público, mas não vou ser hipócrita: em dia de chuva eu bem que gostaria de estar no conforto do meu cárcere privado sobre quatro rodas, ainda sabendo que na tentativa de um assalto eu não teria para onde correr. Não que no ônibus eu tenha [caso isso aconteça]. É que nele pelo menos tem alguém dirigindo por mim e eu posso compartilhar do pânico com outros passageiros.

Voltando ao ônibus cheio: demasiado desconforto, mais pelo vai-e-vem dos passageiros que entram e saem do que necessariamente pelo acumulado de pessoas. Sua bolsa sobe, desce e volta e o infeliz sentado à sua frente nem para perguntar se você quer que ele carregue-a por alguns minutos. Não… Ele prefere tomar bolsada na cara! Se eu tô sentada, já falo logo de cara: “Quer que eu segure sua bolsa/caderno/mala/mochila?”. Sim. Prefiro carregar coisas a ter coisas batendo em mim. Ônibus cheio. Cheio.Trânsito. “Céus, meu ponto não chega nunca!”. Nunca pensei que poderia desejar tanto um assento de ônibus. Estou a postos, olhando para todos os lados, pronta para ocupar o primeiro lugar que surgir, nem que para isso eu tenha de passar por cima da garota de blusa amarela que também olha para todos os cantos do ônibus, com tanta ou mais voracidade quanto eu para ocupar o primeiro lugar que ficar vago. Haja o que houver, doa a quem doer.

Percebo que estou começando a ficar fora de mim. Ao fundo, o cobrador está com um daqueles celulares que tocam música alta, bem alta. E aqui, reitero uma afirmação que me acompanha desde os idos tempos da adolescência:

“A potência do som de qualquer aparelho sempre será inversamente proporcional à qualidade da música que será executada por ele”.

E o que pode ser pior que um ônibus cheio, em uma noite de chuva e com trânsito, depois de um cansativo dia de trabalho? Voltar para casa ouvindo: “você não vale nada mas eu gosto de você”. E eu não tinha escolha, tampouco escapatória: MP3 sem bateria, chance zero de concentração em qualquer livro ou revista que me acompanhavam e ninguém para quem eu pudesse reclamar naquele momento. Sim, porque às vezes o ato de reclamar já é suficiente para aliviar o coração.

Decidi me concentrar. Fiz um setlist mental que começava com “Molly’s Lips”, na versão do Nirvana, seguido de “Judy Is A Punk” porque eu estou em um momento Ramones bem bobo, mas estou. Então fiquei lá, mentalmente cantando “She said, She’d take me anywhere, She’d take me anywhere…” Passei bons minutos me concentrando na canção, repetindo mentalmente as estrofes e tentando me lembrar de todos os riffs de guitarra, berros roucos e chacoalhões de cabeça do Kurt Cobain… mas não deu. Não deu!

A gota d’ água foi quando começou uma música sertaneja que falava sobre “beber, cair e levantar”. Não. Aí já é demais. Eu tinha três opções:

1 – Tentar ter uma conversa civilizada com o cobrador e dissuadi-lo de continuar ouvindo àquele tipo de música
2 – Ter um surto psicótico no qual eu bateria repetidamente com a cabeça do cobrador contra a janela, preferencialmente na parte em que está localizado o puxador
3 – Descer do ônibus

Claro, pessoa civilizada que sou, desci do ônibus. Bem puta da vida, mas desci. Enfim. Eu gosto dos ônibus. Gosto quando alguém dirige para mim e eu posso ler ou dormir. Caso contrário, eu, pedestre, vou a pé comigo mesma e com o meu setlist mental.

Ontem, depois de um truculento dia de trabalho, restava-me a comemoração do aniversário de uma colega no Bar Cardoso. Noite quente e bonita que não merecia pessoas enfurnadas dentro de suas casas… tampouco de seus carros.

Precisei passar em casa para devolver alguns DVD´s na locadora antes de ir para o Bar. Aproveitei para trocar a roupa social que me oprime por um belo e velho jeans batido que diz tão mais sobre mim do que qualquer outra peça de roupa. Feliz da vida, fui andando pela Teodoro Sampaio rumo à locadora quando me deparei com uma cena que certamente passou despercebida pela maioria dos transeuntes, mas não a mim, eu, pedestre nesse caos paulistano: enquanto eu caminhava, por um motivo qualquer, senti uma imensa felicidade por estar andando, o caminho indo, indo, indo… E cruzava com outros pedestres que, ainda com suas devidas pressas, também iam. Caminhavam, moviam-se, trombavam-se e iam-se. Para suas casas, ou talvez para um bar como eu também iria dali a instantes, ou para a faculdade ou para qualquer lugar. Todos nós [ou quase] tínhamos um lugar para ir. E estávamos indo. Livres.

Depois desse devaneio bobo, não pude conter a curiosidade de olhar para os carros naquela imensa fila que tomava conta da rua. Entre ônibus e motos, lá estavam os motoristas: encarcerados sobre quatro rodas, com a peculiar expressão de desolação daqueles que não podem simplesmente abandonar seus carros e sair, livre, como nós pedestres. Um trânsito estático, de rodas imóveis, simplesmente não saí-se de seu lugar. Eram olhares perdidos, cotovelos cansados que apoiavam cabeças tristonhas, suspiros enfastiados e olhos esfregados como se aquilo fosse um pesadelo que acabaria a qualquer instante.

Nessa hora eu senti uma ponta de satisfação, não vou negar: motoristas que não abrem mão do conforto de seus automóveis e que, ali, configuravam-se em suas respectivas prisões.

O que ele não daria para ser um pedestre naquele instante?

Eu, pedestre e livre.

17 de Março

Março 17, 2009

17 de março. Se você, cidadão labutador, estava saindo do seu honesto trabalho rumo ao seu doce lar às seis da tarde do dia de hoje, sabe bem do que eu estou falando.

O que aconteceu?

Choveu.

Sim, choveu. “Chover”, ah, “chover”. Verbo impessoal porque realmente a chuva não está nem aí pra gente, nos trata com descaso, nos molha quando estamos indo para uma entrevista de emprego, para um primeiro encontro… Impessoal porque é um fenônemo atmosférico mas a menos que eu esteja no quentinho do meu cobertor, no aconchego do meu lar, fenômeno é a mãe! Chove, choveu ou choverá. E a menos que você seja um integrante da banda Cordel do Fogo Encantado, ninguém tem obsessão pela chuva. Não em uma terça-feira às seis da tarde.

Em dias normais, da Avenida Santo Amaro – onde trabalho – até a Juscelino Kubitschek [pelo corredor de ônibus], são 10 minutos. E 10 minutos com aquela fila de ônibus, gente entrando e saindo. Mas hoje não. Nããããããão! Hoje choveu né? Imagina, 10 minutos! Bah! Lá se foram 40 minutos da minha vida, em pé, no ônibus cheio. Juro que a única coisa que eu conseguia pensar era: “Que desperdício de tempo de vida! E nem posso acender um cigarro para encurtá-la antes que tudo fique pior”. Para piorar, não carregava guarda-chuva [porque odeio carregar guarda-chuvas] e era ou me molhar ou torcer para um milagre acontecer, tipo alguém perder a paciência, sair fora, encarar a chuva e um belo assento sorrir para o meu cansado bumbum trabalhador!

E o milagre acontece. Juro. Foi como se uma luz viesse das escuras nuvens chuvosas, iluminando aquele desconfortável banco, ao som de querubins e harpas, um lance meio “óóóóóóóóó”. E ali, bem na minha frente. Premiada! A mega sena do trânsito caótico: um lugar para sentar no ônibus!

Aí tudo ficou beleza, porque eu nem ligo de ficar no ônibus, de carregar bolsas de estranhos, de exercer todo o meu lado bom e generoso. Mas… o trânsito não andava. Realmente NÃO andava. O ônibus não se movia. E o tempo passou. A bateria do meu mp3 acabou. O livro acabou. A bateria do celular acabou. Até as crianças cresceram e nada daquele ônibus andar!

Comecei a ficar com medo. Imaginava uma cena estilo clipe de “Everybody Hurts” do REM. “Ficaremos todos aqui, para sempre!”, era o que eu pensava. Dali dez anos estaríamos todos no mesmo lugar, roupas penduradas nas janelas, uma verdadeira comunidade construída a partir de automotores. Em vinte anos seríamos uma vila. Em cinquenta, uma cidade. Em 100 anos nossos descendentes jamais imaginariam que ali, um dia, houve uma avenida…

Duas horas e meia depois, chego em casa. Fiquei sabendo que algumas pessoas ficaram até a meia-noite esperando pelos trens.

Os Reféns

Março 13, 2009

Eu, pedestre, usuária de ônibus, metrô e dos meus próprios pés, estava a bordo do 5111, aka Terminal Bandeira, na altura do Ibirapuera lendo um livro, ouvindo uma música e de vez em quando olhando a paisagem pela janela em pleno horário ternura [vide 19 horas]. O trânsito zunindo e eu quase entrando em alfa. Tchururu…

Minha roomate liga perguntando onde eu estava e seu eu topava ir lá na USP com ela. Coisa rápida: ela já estava saindo de casa, dali uns 5 minutos chegava no cruzamento da Brigadeiro com a Brasil e tal. Topei, desci do ônibus e fui esperá-la.

Vinte minutos depois, todas as unhas roídas e quatro cigarros fumados, eis que ela surge buzinando a bordo do seu automotor claustrofóbico. Fui correndo até ela porque estava esperando-a em um ponto mais longe e queria aproveitar o sinal vermelho para entrar no carro. Depois do “oi-tudo-bem-como-foi-seu-dia” seguimos em frente e avante até a Juscelino, essa avenida amigável, um ótimo local para fazer novos amigos de dentro do carro, já que o trânsito não anda e sim, estamos todos condenados na Juscelino. E na Faria Lima, e na Rebouças, todas essas grandes vias que até os marcianos conhecem de tanto que se fala delas na rádio de notícias.

Enfim, nosso plano era chegar até a USP mas ei! Como? Você não tem escolha no trânsito. Ou você aceita a sua condição miserável ou você surta, tem uma síncope, pula no capô, destrói o vidro dianteiro, dá uma rasteira no marronzinho da CET… E lá estávamos nós confabulando [minha amiga bem mais preocupada / nervosa / estressada porque estava há muito tempo no trânsito] se continuávamos o percurso ou se dávamos meia-volta rumo a qualquer lugar com menos de 134.245 carros na mesma via.

Depois de um momento de emoção único [já que fizemos uma manobra arriscadíssima saindo da pista da esquerda, rumo à da direita, quatro faixas depois, para entrar numa rua] o carro saiu dos 10 km/h e eu, passageira que era, estava mais preocupada em acalmar minha amiga, esta sim, um poço de estresse, fúria, nervos e pilha.

Resolvemos parar para comer e esperar o trânsito melhorar um pouco. Quando sentamos no boteco, o olhar da minha amiga era de total desolação, angústia e perda. Sim, estava dramático. E eu entendo isso porque já passei por momentos inesquecíveis dentro de um carro: chuva, trânsito, pane elétrica, essas coisas.

E assim estão os paulistanos, minha gente. Dramáticos e com um olhar constantemente triste. Reféns do trânsito, dos estacionamentos, dos postos de combustíveis e de seus próprios relógios.

E eu, que não estava ao volante, mantinha meu humor inalterado!

Popularizando o Taxi

Março 4, 2009

Hoje tive que dar uma palestra em Santo Amaro e como estava a trabalho, tive a ida e a volta subsidiadas e meu transporte foi fresquinho e gostoso a bordo de um taxi!

[É importante ressaltar que taxi ainda é um luxo para a classe operária principalmente em São Paulo, essa cidade ternura onde ninguém chega em menos de quarenta minutos a qualquer destino com mais de 3 km de distância da origem. Isso é fato. E isso também significa que qualquer taxi daqui até a esquina te empobrece em, no mínimo, R$ 10,00].

Eu gosto de taxi, não só pelo conforto [óbvio] mas porque os taxistas são sempre simpaticões, numas de querer ganhar o cliente e tal e eu não me importo de ir batendo papo, não sou daquelas que abre o jornal no banco de trás e trata o motorista como um lacaio. Mas nessa minha ida rolou um lance bem estranho porque peguei um taxista mudo que de vez em quando resmungava alguma coisa, “porque esse trânsito de São Paulo está cada vez pior” e “esses corredores de ônibus não servem pra nada” e também “esses motoqueiros são uns canibais”, frase essa que me deixou bastante intrigada porque acredito que o intuito dele era mais o de indicar uma androfagia provocada pelo trânsito do que especificamente motoboys comendo churrasquinho de gente.

Já na volta a coisa foi bem diferente: o motorista era todo amigo do mundo, cheio de opiniões, conceitos, temáticas e metodologias a respeito da vida cotidiana e em meio à Marginal Pinheiros recaímos sobre o debate único e crucial quando se está na terra da garoa: O TRÂNSITO.

É lógico que São Paulo é caótica, a cidade não comporta mais carros e ainda assim, a indústria automobilística teima em te dizer que você só será uma pessoa melhor, mais digna, respeitada e feliz quando se puser enclausurada sobre quatro rodas. E ainda que comprar carro esteja fácil, mantê-lo, meu nego, não é tão simples assim…

Dentro de toda essa questão do custo X benefício proporcionado pelo carro e de todos os entraves que a cidade oferece para quem opta pelo automóvel, sr. taxista e eu chegamos à terminante conclusão que nossa sábia Angélica, em seus idos tempos adolescentes, nos jogou na cara em uma quase premoniação sobre os tempos estavam por vir: vou-de-taxi-ce-sabe-tava-morrendo-de-saudade. Ou seja, o taxi pode ser uma parte efetiva da solução para o trânsito de São Paulo.

E aqui volto na questão de que, ainda que comprar um carro seja bem fácil e viável em tempos pós-modernos, mantê-lo é tarefa para poucos: se você trabalha com o carro, ainda que o use somente para a locomação de ida e volta, os custos com estacionamento, combustível e manutenção são bastante relevantes. Quem tem condições de manter um automóvel sob essa e outras circunstâncias, PODE SIM usufruir do taxi para a locomoção diária porque tem condições financeiras para isso. Quem anda de carro todo dia não vai querer andar de ônibus, talvez tope um metrô, mas ônibus nunca e o taxi – de certa forma – oferece o “conforto” proporcionado pelo carro, travestido de transporte público. E são carros que rodam o dia todo, eles não vão entupir a cidade de repente, das 07h00 às 10h00 ou das 17h00 às 20h00. Quem tem grana para manter um carro, tem grana para ir de taxi. Taxis rodam pelos corredores, você não precisa preocupar-se com o trânsito, pode ir lendo, economiza com seguro, vai até dormindo. E pensando em um mundo perfeito, os taxis poderiam ter tarifas reduzidas durante o horário do rodízio para estimular seu uso não só entre os abonados, mas também entre nós, o proletariado em geral.

Lógico que essa não é uma SOLUÇÃO para o trânsito, mas acredito de verdade que, a curto e médio prazo, poderia ser uma alternativa bem viável para a cidade.

E o taxista disse que topava.